Fazenda São José do Pinheiro, município
de Pinheiral, RJ
Dois trechos sobre
O trecho abaixo foi extraído do site www.prefeiturapinheiral.com.br
Em 1851 foi construída a Fazenda
São José do Pinheiro, propriedade do Barão de Piraí, José Gonçalves de Moraes,
que a deixou como herança a seu genro José Joaquim de Souza Breves por testamento.
Esta Fazenda, São José do Pinheiro, foi uma das mais suntuosas e prósperas Fazendas
de Café do Vale do Paraíba Fluminense. Não era uma simples habitação da roça,
mas um palácio elegante e suntuoso como qualquer palacete da Corte. Erguida
na colina cercada de montanhas, voltada para águas do Rio Paraíba do Sul, ostentava
um magnífico jardim ao seu redor. Duas escadarias de mármore, laterais, levavam
à varanda em frente a sala de espera, adornada com retratos de suas majestades,
o Imperador e a Imperatriz, obras do pintor Cramaelstan, algumas gravuras de
Horácio Vernet, mobília e objetos de decoração de apurado bom gosto. O salão
nobre da Fazenda, era uma peça soberba: grandes espelhos de Veneza, ricos candelabros
de prata, lustres, mobília, tudo como os que ornavam os palacetes da Corte,
na capital do Império. Enfim, tudo na Fazenda era luxo e harmonia (Peregrinação
pela Província de São Paulo – Augusto Emílio Zaluar). Existiam na propriedade,
dois mil escravos dos quais, 30 (trinta) trabalhavam no serviço doméstico. Para
atender esta numerosa população, havia na fazenda: farmácia, cozinhas para hóspedes
e para escravos, capela, um padre e um médico. Todas as meninas aprendiam a
costurar, bordar e fazer renda com perfeição. As cozinhas, as oficinas e os
quartos dos negros, circundavam o terreiro espaçoso, cheio de árvores e arbustos.
Havia também uma orquestra formada por negros escravos, que aprendiam a arte
da música com um professor contratado pelo Comendador José Joaquim de Souza
Breves (“Viagem ao Brasil”, 1865 – 1866 – Luiz e Elizabeth Agassiz). O Comendador
Breves era cunhado e genro do Barão de Piraí e irmão de Joaquim José de Souza
Breves, o “Rei do Café”, que foram grandes produtores de café do país, donos
de milhares de escravos, navios, ilhas, fazendas, sítios, prédios, chácaras
na Corte e um teatro, onde se apresentou o grande ator português, João Caetano.
Foi o primeiro Prefeito de Piraí. Em 1871 (nota: no texto do site consta
1870), com a chegada do transporte ferroviário, surgiu a Estação de Pinheiro,
em terras doadas pelo Comendador. Ao seu redor, pouco a pouco foram surgindo
algumas moradias. Era o início da Vila Pinheiro. Em 1879, faleceu o Comendador,
sem deixar herdeiros. Seu testamento é uma prova de sentimento, caridade e bondade,
pois não só deixava alforriados seus numerosos escravos, como ainda lhes doava
terras para nelas viverem e tirarem seu sustento (Fazenda da Cachoeirinha –
“Fazenda da Cria”). Além disso tinha um teor filantrópico ligado a doações à
igrejas, casas de saúde, apólices para custear o ensino primário e a educação
religiosa católica romana e social do povo. Em 1890, através do Decreto nº 6.862
de 23 de Agosto, foram declaradas de utilidade pública, as terras da Fazenda
Pinheiro, na Estação da Estrada de Ferro.
Abaixo, artigo de MARCOS SÁ CORRÊA publicado na Folha de S.Paulo em 1/12/2002:
Se não fosse um capítulo da reforma agrária em Pinheiral (RJ), um município
de 20 mil habitantes no Vale do Paraíba, o mineiro José Carlos Estevam da Silva
seria uma história de sucesso. Mora num município que oficialmente não tem pesca
nem turismo. Mas num sítio de 26 mil m2, a dois quilômetros da cidade, toca
com a mulher, a filha e cinco empregados um pesque-pague com 400 fregueses.
Vem gente de longe para fisgar tilápias, tambaquis, pacus e carpas em seus açudes
de água turva. E José Carlos, a R$ 7,50 o quilo de peixe frito, faz mais de
R$ 3.000 por mês, trabalhando de quinta a domingo. Comprou um terreno em que
só crescia capim. Quatro anos depois, tem 7.000 m2 de lâmina d'água, playground,
salão de jogos, piscina e campo de futebol, além de 60 coqueiros e 150 mudas
de árvores frutíferas, numa região onde pomar é luxo. De Pinheiral, onde chegou
há 15 anos depois de "correr meio Brasil como mecânico itinerante", ele só tem
uma queixa. Acha que o pesque-pague tem que funcionar no campo e à sua volta
os vizinhos estão loteando tudo. "Ultimamente deram para vender terrenos de
10 metros por 30", diz. E não adianta se queixar à prefeitura, pois José Carlos
está no meio de um assentamento rural, uma autêntica relíquia da reforma agrária
no Estado do Rio de Janeiro, herança do tempo em que à frente do movimento estava
a Igreja Católica, e não o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).
Como ele foi parar lá dentro? Para responder, José Carlos vai buscar o recibo.
Pagou R$ 8.000 a prazo pelo lote, comprado do carroceiro José Raimundo Silva.
"Mas acho que o Zé já era o terceiro dono deste sítio", diz ele. "Eu sou o quarto,
porque a maior parte das invasões é para isso mesmo, para vender." Parece implicância.
Mas não é muito diferente do que se ouve a menos de um quilômetro do pesque-pague,
atrás de uma porteira marcada pela estrela do PT. "O problema é que no interior
do Rio de Janeiro quase não existe mais área rural. No primeiro aperto, corre
todo mundo para a cidade", diz o assentado José Repolês Teixeira. Dezessete
anos atrás, ele ajudou a fazer aquela invasão, que parecia um caso de manual.
Invadiu-se o retalho de um latifúndio legendário, que originalmente pertencera
ao comendador Joaquim José de Souza Breves, o maior cafeicultor do mundo no
século 19, dono de 6.000 escravos e 102 fazendas. Quando 45 famílias começaram
a tomar aqueles 600 hectares, eles estavam encostados no Ministério da Agricultura,
que desde 1978 deixara de usá-los como posto de zootecnia, para a quarentena
de animais importados. Nos pastos que o governo largou, pastava na época o gado
do pecuarista Darci Pires do Nascimento, que Repolês chama de grileiro. Circunstâncias
Se os pretextos para a reforma agrária em Pinheiral eram bons, as circunstâncias
no país não poderiam ser mais favoráveis. As terras estavam encaixadas entre
a Via Dutra, e o Colégio Agrícola Nilo Peçanha, da Universidade Federal Fluminense.
Ou seja, tinham uma estrada muito trafegada de um lado e uma escola técnica
do outro. Em Brasília, engatinhava o regime civil sob a Presidência de José
Sarney, um radical da conciliação. No Estado, o governador Leonel Brizola era
o primeiro a se dizer socialista. Quase duas décadas depois de pegar seus três
hectares, Repolês mora, com a mulher e os dois filhos, numa casa onde as galinhas
ciscam na varanda. Tem 42 anos. Desde os 25 se desdobra entre a lavoura e a
militância. Já foi presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Piraí,
município colado em Pinheiral, dirigente local do MST e vice-presidente da Federação
dos Trabalhadores na Agricultura do Rio de Janeiro. E nem por isso deixou a
roça. Já fez de tudo. No começo, vendia hortaliças na feira de Volta Redonda.
Mais tarde, tirava 70 litros de leite por dia das 150 cabras criadas no lote.
Agora, produz 30 mil litros de cachaça por ano, com a cana que planta. Nesses
nove meses de governo Benedita da Silva, virou presidente do Instituto de Terras
e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro. Seu gabinete fica a cento e tantos
quilômetros do sítio. Ele vai e volta sem parar, empenhado em distribuir 2.700
títulos de posse aos assentados sem-papel. Como assentado, Repolês tira em média
"uns dois mil e poucos reais por mês, limpos". Dá para um carro Kadett com quase
dez anos de uso, um caminhão Ford de 1969 e um trator fabricado em 1970. Mas
admite que, além dele, "no assentamento, em boa situação mesmo, só tem o Alvacy
da Cruz Roela, o Antonio Feliciano Neto, o Joaquim, o Alcy Eller. Mas, desses,
alguns são aposentados. Têm renda garantida". Citado entre os aposentados que
deram certo, Joaquim Silva Moreira conta sua experiência: "Eu vim porque estava
encostado e não agüentava mais ficar à-toa, dormindo de dia. Ouvi falar que
tinha um monte de gente vindo para cá e vim atrás". Ele tem 76 anos. Aposentou-se
na Light há 27. A aposentadoria lhe dá R$ 1.100 por mês. Em outubro, plantando
jiló, ganhou R$ 700. Mas é crítico severo do fracasso alheio: "Também cheguei
sem prática. Aprendi fazendo. A maioria foi embora ou manteve um lotezinho só
para morar". Desistências Quantos desistiram nem Repolês sabe ao certo. "Chegamos
a pôr aqui dentro 200 famílias. No cadastro de 1998, já tínhamos 216 propriedades
e 80 famílias", diz ele. A tentação imobiliária chegou em 1993, quando a Companhia
Siderúrgica Nacional foi privatizada. Despedidos nas ondas de enxugamento, os
ex-funcionários gastavam a indenização em casas de campo nos arredores de Volta
Redonda. E Pinheiral ficava perto. Se lhe faltam números, Repolês sabe muita
história. Por exemplo, dos irmãos Waldyr, Darcy e Gessey Francisco da Silva,
que tinham casa própria e barraca na feira de Volta Redonda, mas participaram
do assentamento, passaram adiante seu lote por R$ 12 mil para montar uma loja
na cidade. "Perderam tudo e Waldyr apareceu depois por aqui, querendo trabalho
como empregado. Arranjei outra terrinha e ele vendeu de novo." Os assentados
não introduziram a especulação em Pinheiral. Encontraram ela pronta. "A cidade
é toda feita em cima de posses. Começou com grileiros. Depois veio a invasão
e até que organizou as coisas um pouco melhor", afirma Repolês. O secretário
de governo Jorge da Silva Mello confirma: "Já se fez tanta politicagem por aqui
distribuindo terras do governo federal, que a prefeitura não tem mais como regular
a propriedade". Pinheiral tem pouco mais de 5.000 imóveis. Pouco mais de 3.000
pagam IPTU. A cidade inteira mede 81 quilômetros quadrados. Menos da metade,
segundo Silva Mello, está regularizada. O resultado aparece nos morros cravejados
por ninhos de cupim. O córrego Caixinha de Areia, que já abasteceu o município,
praticamente secou na estiagem deste ano. E a terra, cotada a R$ 10 mil o alqueire,
vale tão pouco que é melhor negócio vendê-la como barro para as sete olarias
que ainda são a principal indústria da região. Levada por elas de caminhão,
a terra vale R$ 25 mil o alqueire. E deixa para trás uma cratera estéril onde
o dono, com sorte, pode plantar uma piscina.