E. F. de Morro Velho
(Município de Raposos e Nova Lima, MG)

 

As ferrovias industrais, ou particulares, do Brasil - aqui classificando-as como sendo ferrovias que não eram de uso público, sendo utilizadas apenas dentro de empresas, indústrias, usinas e outras - foram pouquíssimo estudadas e pesquisadas no Brasil. Uma ou outra têm mais informação: seu patrimônio se esvaiu há décadas, vendido como sucata em grande maioria, sem que sua memória tenha sido resgatada. Por isso, o que se vê é um estudo com dados mínimos e colhidos em fontes diversas, nem sempre confiáveis (Ralph M. Giesbrecht).

Nome: E. F. de Morro Velho

Bitola: 0,66 m (1)

Extensão:
9,5 km (4);
8,0 km
(1)

Data de início das atividades: 1913 (2); 1914 (3)

Desativação:
1970 (1)

Proprietários identificados: The Morro Velho Railway Co.


ACIMA: mapa da linha da Morro Velho, de Raposos (no canto superior direito) a Nova Lima (à esquerda) (Acervo Allen Morrison, cortesia Antonio Gorni).

(1) segundo Antonio Gorni, em www.efbrazil.eng.br
(2) segundo W. Stiel e Allen Morrison
(3) segundo Demerval Pimenta
(4) segundo Max Vasconcellos, em 1928



ACIMA: Texto da Revista O Cruzeiro, de 11/10/1958 (Acervo

Manoel
Monachesi
, cortesia Jorge A. Ferreira).

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A estação de Raposos foi inaugurada em 1891 na linha do Centro da E. F. Central do Brasil. Desta estação saía uma linha de bondes elétricos da St. John Del Rey Mining Co., que administrava a Mina de Ouro Morro Velho, com um percurso de 9,5 km que partia da plataforma da estação e a ligava à cidade de Nova Lima. A mina existia desde 1830 e funciona até os dias de hoje.

Antonio Gorni escreve que '"a idéia de se construir uma linha férrea entre a estação ferroviária de Raposos e Nova Lima surgiu da necessidade de facilitar o acesso de máquinas, equipamentos e insumos à mina, cuja expansão era cada vez maior. Além disso, o crescimento da mina havia resultado num grande aumento do número dos operários que nela trabalhavam, criando problemas habitacionais na região. A administração da Mina de Morro Velho constituiu a The Morro Velho Railway Co. no final da primeira década do século XX com o objetivo de se concretizar essa ligação, que recebeu o privilégio de explorar essa concessão por cinqüenta anos. Suas obras se iniciaram a 30 de Março de 1911. Não há certeza quanto à data da inauguração dessa ferrovia: Waldemar Stiel e Allen Morrison citam 25 de março de 1913, enquanto que Demerval Pimenta informa 3 de Abril de 1914. Como era comum na época, as condições técnicas da linha não eram das melhores: bitola de 0,66 m e curvas de até 47 m de raio. Contudo, apresentava uma grande inovação para as ferrovias brasileiras: ela já iniciou sua operação totalmente eletrificada, fato raríssimo no país. Ela também foi a segunda ferrovia a usar tração elétrica no Brasil, sendo precedida somente pela E.F. Corcovado. Certamente a eletrificação da E.F. Morro Velho decorreu da abundância de energia elétrica na região, uma vez que a mina dispunha de uma usina hidrelétrica própria. Essa recursos permitia dispensar o uso da lenha na ferrovia, que vinha se tornando cada vez mais cara e escassa a partir do início do século XX, e do carvão importado, de custo proibitivo. O material rodante foi fornecido pela General Electric, que estava se revelando uma potência dominante na área da tração elétrica e que teria um brilhante desempenho nas ferrovias brasileiras. A E.F. Morro Velho adquiriu sete locomotivas, sendo quatro de 4 t e três de 3,75, seis carros-reboque abertos e quatorze vagões. O serviço de passageiros entre as duas localidades era público, embora predominasse o transporte gratuito dos empregados da mina; uma composição circulava entre elas de quarenta em quarenta minutos. A estrada também servia um pequeno povoado no meio do percurso chamado Galo, onde a Companhia Morro Velho tinha uma fábrica de arsênico. Três vezes por mês o serviço era interrompido, tropas ocupavam toda a linha e composições especiais circulavam por ela levando lingotes de ouro que eram baldeados para trens da Central do Brasil rumo ao Rio de Janeiro. A concorrência rodoviária fez com que o transporte de passageiros pela E.F. Morro Velho definhasse ao longo das décadas de 1950 e 1960. O serviço passou a ficar cada vez menos atrativo do ponto de vista econômico, até que a Companhia Morro Velho decidiu desativá-lo no último dia de 1964, alegando prejuízos e a irregularidade jurídica da operação da ferrovia, cuja concessão havia vencido e não havia sido renovada. O anúncio da paralisação provocou ameaça de greve por parte dos funcionários da empresa; a Prefeitura de Nova Lima então o assumiu em 1° de Janeiro de 1965. Apesar de toda a resistência, em 1970 a ferrovia foi suprimida, seus trilhos arrancados e substituídos por uma rodovia. Não há notícias sobre preservação de locomotivas ou carros que foram usados nessa linha" (resumido do site www.pell.portland.or.us/~efbrazil/electro/efmv.html).

ACIMA: O bonde de Morro Velho, puxado por locomotiva elétrica, anos 1960, e outros bondes na espera (Fotos Leonardo Bloomfield, anos 1960). ABAIXO: Carro de passageiros fechado (Fotos Leonardo Bloomfield, anos 1960), e à direita, o bonde em 1957 (Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, IBGE, 1958. Cessão: Jorge A. Ferreira). Todas as fotos foram tiradas na plataforma da estação de Raposos, na Central do Brasil.

ACIMA: Transporte de caixão funerário e de caixas de barras de ouro; ABAIXO: Casal no interior do trem e o trem puxado pela pequena locomotiva (Revista o Cruzeiro, 11/10/1958, acervo Manoel Monachesi , cortesia Jorge A. Ferreira).

ABAIXO: Cenas do trem da Morro Velho no seu percurso (Revista o Cruzeiro, 11/10/1958, acervo Manoel Monachesi , cortesia Jorge A. Ferreira).