Linha do Manhuaçu
(Minas Gerais/Rio de Janeiro)

 

E. F. Leopoldina / RFFSA
(1883-1978)

Bitola: métrica.


Acima, a estação de Três Rios, em 1908, de onde saía o trem para Manhuaçu (Foto Preserve). Abaixo, estação de Recreio, em 2002, onde o trem se dividia para Ubá e para Manhuaçu (Foto Jorge A. Ferreira)



Acima, a estação de Carangola, em 2002, já próxima a Manhuaçu (Acervo Wanderley Duck).

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Nota: As informações contidas nesta página foram coletadas em fontes diversas, mas principalmente por entrevistas e relatórios de pessoas que viveram a época. Portanto é possível que existam informações contraditórias e mesmo errôneas, porém muitas vezes a verdade depende da época em que foi relatada. A ferrovia em seus 150 anos de existência no Brasil se alterava constantemente, o mesmo acontecendo com horários, composições e trajetos (o autor).

Este trem de passageiros da Leopoldina (no final, operado pela RFFSA) corria na chamada linha do Manhuaçu. Existiu desde 1883 quando foi aberto o primeiro e curto trecho até Palma e a partor de 1915 passou a fazer todo o trecho até Manhuaçu, que passou a ser a estação terminal. Os trens foram desativados de 1977 a 1979, dependendo do trecho: o último sobrevivente foi o trecho Recreio-Porciúncula, em 1979, se confiarmos nos horários impressos nos guias da época. Na verdade, os trens partiam de Três Rios, onde se dividiam composições da Leopoldina que vinham do Rio de Janeiro. Em Recreio, deveria haver mais uma divisão de comboios, depois de cerca de meia hora de parada: uma parte do trem seguia para Manhuaçu, outra para São Geraldo, encontrando a linha Três Rios-Caratinga pela linha do Centro da Leopoldina. Como em praticamente todos os trens de passageiros do Brasil a partir dos anos 1960/70, esses trens passaram a ser usados em trechos curtos, de uma estação a outra; raramente alguém se dispunha a seguir pelo percurso todo, já que naquela época mesmo as precárias estradas e os pequenos ônibus já faziam os trechos longos em tempos bem menores. Como curiosidade, na região de Porciúncula, o trem entrava e saía do Estado do Rio de Janeiro por alguns quilômetros (as estações de Porciúncula e de Dona Emília ficavam neste Estado). Hoje não existe mais linha entre Cisneiros e Manhuaçu, sobrou apenas com tráfego quase nulo de cargueiros e autos de linha os trilhos entre Recreio e Cisneiros.

Percurso: Recreio - Manhuaçu.
Origem da linha:
A linha do Manhuaçu foi aberta em partes:
Recreio - Palma - 1883
Palma - Carangola - 1885-1887
Carangola - Manhuaçu - 1911-1915
Abaixo, o horário dos trens que percorriam a linha, em 1972. Eles partiam de Três Rios e seguiam para Manhuaçu numa viagem sem baldeações, de cerca de 8 horas e meia (Guia Lev. julho de 1972).

Comentários: Alguns ferroviários e usuários chamavam o trem para Manhuaçu de Trem da Zona da Mata."Pelo que me recordo, havia um trem diário, que só ia de Manhuaçu até Carangola, passando por Caparaó, e outro, uma vez por semana, no domingo, que vinha direto do Rio de Janeiro, o "noturno", que trazia as revistas e os jornais. As primeiras revistas em quadrinhos que li vinham por esse trem, que a gente ficava esperando para pegar o que chegava. Era tudo puxado, na época, ainda por locomotivas a vapor. Havia uma senhora que fazia pastéis que a gente, crianças do local, ficava vendendo na plataforma da estação, pela janela do trem, que, quando parava, muita gente comprava sem descer do trem. Era uma das nossas diversões. Nós morávamos a 6 km da cidade, e havia uma passagem de nível ali perto da nossa casa. Como a estação ficava muito longe, para não termos de descer do trem na estação de Caparaó e ter de caminhar tudo isso para chegar em casa, a gente pedia ao maquinista para diminuir a velocidade quando passava por ali. Um dia ele se esqueceu de reduzir e meu pai pulou assim mesmo, sem perceber. Quebrou a perna" (Atahyde, nascido em Caparaó, hoje em São Paulo, 05/2006). "O trecho que eu viajava com minha mãe era Morro Alto-Porciúncula, onde moravam meus avós maternos. Era uma festa: as paradas (Patrocínio, Eugenópolis, D. Emília...) e os vendedores de "quitandas", as paisagens que se sucediam, o barulho nos túneis e pontilhões. Aos meus olhos de criança era

ACIMA: (esquerda) Trem misto na estação de Eugenópolis, anos 1970 (Acervo Cleber Agostini). (direita) Composição de passageiros na estação de Manhuaçu, sem data (acervo Paulo César Pereira). ABAIXO: (esquerda) Outro trem misto passando pela cidade de Eugenópolis, também anos 1970 (Acervo Cleber Agostini). (direita) O trem para Manhuaçu, supostamente próximo a Cisneiros. Nessa época o trem já estava próximo ao seu final, sendo puxado por uma locomotiva diesel com a pintura já da RFFSA (Autor desconhecido).

tudo muito impressionante. Sem falar do movimento do trem na cidade e a espera dos parentes. Meu avô sempre acenava com um lenço branco ao passar pela curva de onde, no quintal de casa, víamos o trem. Curti isso até uns seis anos (1969). Depois, ele foi parando de circular. Quando parou mesmo, minha família já havia começado a migrar, vitimada pela crise dos anos 1970. Quando retornamos (pior do que saímos), por volta de 1975, não havia mais trens. As linhas foram arrancadas logo depois, sobraram as estradas de chão, até hoje, pasme! Quando, às vezes visito minhas tias em Porciúncula, meu irmão mais velho faz questão de percorrer comigo o antigo leito do trem. São regiões lindas. Tão lindas quanto esquecidas. Meu bisavô recebia os jornais pelo trem. Hoje, nem banca de jornal existe em Barão do Monte Alto. Havia um senhor italiano que vendia revistas no trem. Depois de muitos anos, pelo final dos 80, eu e minha mãe o encontramos em Porciúncula, ele se lembrou dela e a cumprimentou. No trem, além das revistas, o que mais me encantava era o ferroviário que cuidava dos bilhetes e o seu sobretudo" (Dilma A. de Paula, 09/2005).