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VXY Mogiana em MG
Estações de Minas Gerais
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RMV-Ramal de Machado
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Córrego Fundo
Machado
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ESTIVE NO LOCAL: SIM
ESTIVE NA ESTAÇÃO: SIM
ÚLTIMA VEZ: 2007
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E. F. Machadense (1928-1938)
Rede Mineira de Viação (1938-1963)
MACHADO
Município de Machado, MG
Ramal de Machado - km 342,600 (1960)   MG-2759
Altitude: 781 m   Inauguração: 14.04.1928
Uso atual: demolida   sem trilhos
Data de construção do prédio atual: 1928 (já demolido)
 
 
HISTORICO DA LINHA: A linha foi aberta a partir da estação de Gaspar Lopes, na linha Cruzeiro-Jureía, como E. F. Machadense em 1922 e absorvida pela Rede Mineira de Viação em 1938. Transformado em simples ramal, o trecho seguiu operando até 28/02/1963, quando foi extinto.
 
A ESTAÇÃO: "Tendo sido aberta, em 14 do corrente, ao tráfego geral a estação de Machado, na Estrada de Ferro Machadense, deverão ser observadas, a partir dessa data, as seguintes instrucções no que respeita á cobrança de fretes e applicação de tarifas na referida Estrada, entregue ao trafego da Rede de Viação Sul Mineira: 1) Vigorarão nas linhas da E. F. Machadense, de Alfenas em diante, o Regulamento Geral de Transportes, a pauta, bem como as tarifas adoptadas pela rede de Viação Sul Mineira, accrescidos os fretes ou preços de passagens, naquelle trecho, do addicional de 20%. 2) Os trens ou preços de passagens serão calculados separadamente, fazendo-se em primeiro logar o calculo com todas as taxas até Alfenas e, a seguir, o calculo dessa estação até a de destino na E. F. Machadense, em cujo trecho será applicado o addicional de 20%" (Documento ferroviário, 1928, p. 359/360).

O que restava em Machado em 2007 era somente o armazém da ferrovia, pois a estação, ao seu lado, havia sido demolida. 40 anos antes, Em 11/3/1964, a Prefeitura da cidade pedia, pelo DD-100 da RFFSA, autorização para a RMV a ceder o prédio da estação para a instalação de uma estação rodoviária.

"
A estação era tão bonitinha! Veja na foto (abaixo) a última construção, a sua esquerda, tem uma parte mais alta que dá para ver mesmo do fundo, isto lhe emprestava um charme de "bangalô"..." (Magaly Vieira Guerra, 2003).

No lugar da estação, hoje está o horrível prédio do mercado municipal de
Machado.

Como se chegava a Machado antes do trem, em 1920? "Hoje parti de Caxambu, amanhã chegarei a Pontalete, na confluência do verde com o Sapucaí, donde uma linha de automóveis me levará a Machado, à hora de jantar com minha filha. Visita de médico, tal como as do marido, para matar e reviver saudades". No ano seguinte, ele retornou e comenta: "Sabado, 30, pretendo tomar o trem para visitar minha filha no Machado. Viagem bem aborrecida, que se podia fazer num dia, mas toma dois e no segundo ainda exige 50 kilometros de automóvel". Em outra carta, sobre a mesma segunda viagem, ele comenta: "Este anda cerca de 50 quilometros, faz-se quase todo no escuro, e o caminho, salvo umas passagens chamadas mata-burro, é regular. O trecho ferroviário é cerca de 10 quilometros mais que daqui (Rio) a São Paulo, mas pede quarenta horas, por causa de uma interrupção de mais de 20, já na bacia do rio Verde, aonde é forçado a dormir"
1920-21
AO LADO:
Por Capistrano de Abreu, cartas para João Lúcio de Azevedo, abril 1920 e maio 1921.










1922
AO LADO: E finalmente foi acertada a criação da E. F. Machadense
(O Estado de S. Paulo, 22/3/1922).

"Aconteceu naqueles tempos passados, lá por 1926, quando as matas virgens caiam aos golpes de machado para dar lugar a exuberantes cafezais que levaram o nome de Machado a projetar-se no cenário mundial como sendo o melhor café do Mundo. O clima de serra, o solo humífero das matas, o carinho dos fazendeiros e o trabalho incansável dos colonos, em feliz união enriqueceram a "Cidade presépio", engastada nos contrafortes da Mantiqueira. Intrigas políticas afastaram Dr. Flávio de Salles Dias de Machado mas esta mesma política, dando exemplo de que muito se pode unida, coligando elegeu-o em votação cerrada a Deputado Estadual. Dr. Flávio, dotado de qualidades necessárias para um bom político, repartia suas atenções entre os colegas, o governo e seu eleitorado. Longe daqui mas atento às necessidades do povo que representava, lutava para conseguir que a RMV fizesse o ramal Machado -Alfenas que lhe havia sido prometido pelo governo. Era difícil para os cafeicultores o embarque dos sacos da rubiácea. Em pleno auge do café, por volta de 1925, precária estrada de rodagem, só permitia que as bagas de café fossem transportadas em carro de bois até Alfenas ou em pequenos caminhões que levavam apenas 25 sacos por viagem. Imaginemos então estes pioneiros do transporte a carregarem continuamente sacas e sacas, quando a produção, em certos anos chegava a 150 mil sacas! Havia em Alfenas muitos armazéns que se interessavam pelo nosso café por causa da fama. Eram eles: Figueiredo, Magalhães & Lemes e Manuel Rodrigues (de Alfenas) ainda Olímpio Corsini, Moreira & Cia (de Alfredo Moreira, tio de meu avô), ambos machadenses. Estes armazéns compravam nosso café e vendiam para Santos de onde eram embarcados para o exterior. Dr. Flávio não convencendo a RMV de construir o ramal, conseguiu autorização do Governo para sua implantação pelos próprios fazendeiros interessados. Depois de muitas reuniões foram vendidas cotas para a construção da EFM, fazendo assim o capital inicial. Em seguida contrataram o engenheiro Arlindo Silveira, de Alfenas, que fez o traçado. Verificou-se então que, devido à topografia muito acidentada, seria necessário muito serviço de terraplanagem; contrataram o italiano Boreli, especialista nisto e um português, troncudo e bigodudo, para assentar os trilho e lidar com pedras. Era excitante o desafio! Um trabalho de homens corajosos cujo brio e obstinação a toda prova, fizeram da construção da obra seu ponto de honra. Duas frentes foram criadas; uma partindo de Alfenas, outra de Machado. O canteiro de obras tornou-se ponto turístico. Naquele tempo eram numerosas enxadas cavando, pá jogando a terra e burrinhos transportando-a em carroças mas era agradável,excitante mesmo, e tinha sabor de progresso. Os burrinhos eram um espetáculo à parte ... acostumaram tanto que dispensavam o carroceiro! Um dos maiores problemas foi uma pedreira que havia e que teria que ser cortada mas não podia interromper a estrada que por lá passava. Paralisou a obra, esgotou o dinheiro e novamente os políticos foram acionados. Dr Edvard Dias foi para Belo Horizonte ver o que era possível fazer junto com Dr Flávio. Por aqui os boatos do fim do sonho era o que mais se ouvia em Alfenas e Machado. Foi quando meu avô entrou na estória. Moravam, ele e o Boreli, no mesmo Hotel do Tonico Manso. Uma tarde houve um diálogo mais ou menos assim: - Olha Antônio, eu vou embora! Meus operários estão sem receber! O dinheiro acabou! - Calma Boreli, o Dr. Edvard volta logo e resolve o problema! - Não! Eu tenho dinheiro suficiente pra pagar meus empregados, pago e vou embora, não agüento ouvi-los reclamar. - Escuta Boreli, vou ver o que posso fazer para resolver seu problema, depois você dá sua solução definitiva. Meu avô saiu dali e foi falar com seu Tio Alfredo Moreira (dono do armazém Moreira & Cia). Começou então um jogo: Antonio falou com o Alfredo, Alfredo falou com Dr. Arlindo, Dr. Arlindo falou com Dr. João Leão de Faria (Gerente do Banco de Alfenas). Decidiram tirar o dinheiro no Banco, por 15 dias. Alfredo assumia a responsabilidade e Dr. Arlindo abonava. Estava resolvido o problema do Boreli mas e da estrada? Somente 15 dias! Que curto espaço de tempo! Desta vez não ouve zum zum nem boatos, eles estavam trabalhando como bons mineiros - em silêncio. Foi um grande alívio quando receberam a notícia da chegada do Dr. Edvad mas, infelizmente, não havia dinheiro em caixa mesmo. Como levantar mais capital em tão pouco tempo? Que fonte abundante recorrer nesta crise? Dr. Edvad, confiante em seu conterrâneo, foi procurar o Comendador Lindolfo de Sousa Dias, um benemérito de Machado. Não estava em casa, havia ido a Paraguaçu visitar uns parentes. Não podia esperar, o caso era urgente. Pela estrada de Ponta Leite ia Dr. Edvard ansioso, os dias passavam rápidos, o caminho era pedregoso. Ao expor a difícil situação em que se encontrava o empreendimento o Comendador Lindolfo pronunciou as palavras que tanto gostava de dizer: - Dinheiro em mãos não tenho mas a gente sacode a Limeira e sempre caem limas. Limeira era o nome da fazenda dele, uma de suas fontes de renda, fruto de sua admirável capacidade administrativa e empreendedora. Estava resolvido o problema da estrada, ela foi concluída. Alguns anos mais tarde o governador de Minas, Antônio Carlos, vindo a Machado foi muito bem recebido. Claro que a política local não deixou de pedir-lhe a encampação da EFM pela RMV no que foi atendida. O valor pago foi o suficiente para reembolsar com bastante lucro o capital empatado. Termina assim a História da construção do ramal Alfenas-Machado que durante muitos anos foi passagem obrigatória dos viajantes por esta parte do interior. Depois muitas coisas mudaram. Com a construção da usina de Furnas a já decadente RMV perdeu muitos trechos de sua rede, inclusive esta. Muito interessante foi que quando minha mãe soube que seria o penúltimo dia que a máquina viria, fez questão que eu, então com alguns meses, fizesse esta viagem. Fomos a Alfenas e voltamos. Claro que não me lembro. Que pena!"

ACIMA: Relato de Tomaz Antônio Vieira Godoy , Machado, MG.
















AO LADO:
Mapa mostrando a posição do ramal e estação de Machado, sem data.










1922
AO LADO: Contratação da construção do ramal
(O Estado de S. Paulo, 8/2/1922).










1929
AO LADO: Menos de um ano depois da inauguração da ferrovia
e da estação terminal da cidade, as chuvas inundaram todo o pátio e parte da linha, ambas praticamente no centro da cidade (O Estado de S. Paulo, 28/2/1929).

(Fontes: Ralph M. Giesbrecht, pesquisa local; Magaly Vieira Guerra; Tomaz Antônio Vieira Godoy; Nilson Rodrigues; Capistrano de Abreu, cartas para João Lúcio de Azevedo, 1920-21; O Estado de S. Paulo, 1929).
     

Na véspera da inauguração da E. F. Machadense, em Machado, os ferroviários, comerciantes e fazendeiros de Machado posam junto À locomotiva. Foto cedida por Magaly Vieira Guerra

A estação, ao fundo, do lado da plataforma, sem data. Em primeiro plano, o armazém que existe até hoje. Foto cedida por Magaly Vieira Guerra

Armazem de Machado, em 2002. Foto Nilson Rodrigues
     
Atualização: 21.09.2018
Página elaborada por Ralph Mennucci Giesbrecht.