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A ESTAÇÃO: A estação de Tatu
foi inaugurada em 1876, e tinha, após a eletrificação da
linha em 1920, uma subestação perto dela, sendo portanto ponto estratégico
para a Paulista.
Durante muitos anos, uma linha de bitola de 60 cm correu de Tatu
até a pedreira ali existente, da CP, em boa parte do percurso paralelamente
à linha principal. Decauvilles iam e vinham do lado oeste
da linha, operando pelo sistema de caixas baldeáveis. No início
dos anos 1970 ainda era possível se ver essa pequena ferrovia.
Em 03/07/1996, quando lá estive, a estação estava fechada. Em 30/09/2000,
nova visita: a estação estava aberta, depredada, abandonada, pichada.
Várias casas e armazéns estão servindo de moradia, algumas estão
simplesmente fechadas.
Batista Batistella, morador da casa mais bonita da vila, é quem
fala (09/2000): "Mudamos para cá em 1935, quando eu era moleque.
Meu pai comprou a casa de um espanhol, que havia acabado de construí-la:
aí, a mulher dele morreu, ele ficou desgostoso e foi embora. Meu
pai era dono da fazenda aí na frente, depois vendeu. Ele morreu
e eu fiquei morando aqui. Tatu era muito mais bonito, a ferrovia
tinha vários armazéns que hoje estão fechados ou invadidos. As passagens
de nível funcionavam com ferrolho automático, e fechavam ou abriam
com a aproximação do trem. A área da estação e da linha eram cercadas
com arame, era tudo bem cuidado. Às vezes, eu e meus amigos
íamos brincar na estação, passando a cerca; aí, mexíamos em alguma
coisa, e à noite, vinha uma carta de reclamação do chefe da estação
para os nossos pais. Aqui em Tatu existiam várias fábricas de facas
e de canivetes; hoje, tem só uma ou duas. Outro dia, mudou-se para
um armazém um sujeito que dizia que era da ferrovia, e começou a
juntar tudo que era de ferro, tirar coisas da linha e dos vagões;
ele levava tudo para a cidade para vender como ferro-velho. Aí veio
a polícia e o pegou, levando-o preso. Esses vagões, que estão ali
nos desvios, estão ainda cheios dessa sucata".
Outro relato é de Rodrigo Cabredo, em 1999: "Eu me lembro
da minha primeira viagem de trem que eu fiz sozinho, quando eu inocentemente
comprei uma passagem de acordo com o dinheiro que eu tinha que,
pelos meus cálculos, dava para ir até Tatu, e eu nem sabia como
era ali. Então, peguei o trem das 8:05 que saía da Luz e quando
cheguei em Tatu fiquei desolado porque não era uma cidade e sim
uma vila ferroviária, então fiquei quietinho no trem e só desci
em Limeira. Ah, que saudades das intermináveis conversas com os
ferroviários velhinhos que me contavam as velhas e boas histórias
da Paulista, quanta coisa foi vivida... A mobilização para se preservar
um trecho da ferrovia era evidente".
Um relato mais recente, de Júlio Cezar de Paiva, em 15/10/2000:
"Enquanto fotografava a estação, um grupo de 5 crianças ficou
à minha volta perguntando tudo. Perguntei sobre se já havia passado
algum trem hoje e eles afirmaram que por volta das 9h30 passou um
com destino a Limeira e que que por volta das 11h30 passaria outro
com destino a Campinas. Não deu outra. As 11h50 lá vem 03 Dash-9
apitando adoidado, que belo apito, puxando 80 vagões de alumínio.
Fotografei velhos vagões de carga e serviço na beira da linha. A
cabine de controle da antiga CP ainda esta lá com aquele montão
de alavancas. Não deu para subir no piso superior porque não ha
piso, ruiu. Segundo a molecada, os trens de passageiros passam por
Tatu e para se pegar o trem e só levantar a mão que o trem para.
Que nem ônibus. Segundo um dos moleques, o pai dele afugentou um
bando de vagabundos que morava na estação na base do revólver. Um
dos vagabundos até urinou nas calças (imagino) e nunca mais voltaram.
Dá até para acreditar, pois encontrei no interior da estação, além
das costumeiras fezes, uma panela cheia de arroz e outra com feijão
semi prontas. A gota d'agua, foi o fogo que eles estavam fazendo
com parte das janelas da estação. Radical mas deu uma sobrevida
a estação".
Em 2015, a estação continuava mais morta do que nunca,
mas em pé e recentemente restaurada. Não sei se estava
sendo usada para alguma coisa.
CLIQUE
AQUI PARA VISUALIZAR A ESTAÇÃO VISTA DO SATELITE
(gentileza Antonio Carlos Mussio)
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1927
AO LADO: Problemas com o correio no bairro (O Estado de
S. Paulo, 28/12/1927).
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ACIMA: Trem de passageiros da FEPASA em Tatu,
c. 1975 (Foto Roque Batista).
(Fontes: Ralph M. Giesbrecht, pesquisa local; Roque Batista;
Antonio Carlos Mussio; Júlio Cesar de Paiva; Rodney Berto;
Douglas Leão Kerche de Camargo; Rodrigo Cabredo; Batista Batistella;
Antonio A. Gorni; Wanderley Zago; Jefferson Conti; Filemon Peres;
O Estado de S. Paulo, 1927; Cia. Paulista: Relatórios anuais,
1872-1969; Mapas - acervo R. M. Giesbrecht)
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